O T-Roc promete ser um sucesso de vendas, com a procura prevista a superar a capacidade de produção da Autoeuropa. Mas isso não impede que tenha uma falha clamorosa.

A Volkswagen tem toda a confiança na Autoeuropa, mas a fábrica de Palmela tem um grande desafio pela frente, com a produção do T-Roc. Feita a passagem de um para três turnos de trabalho e de cinco para seis dias por semana de laboração, a capacidade estimada anual vai atingir os 200 000 carros por ano, um valor que está abaixo da expetativa de procura do modelo. É por isso que, por exemplo em Portugal, a SIVA, o importador da marca, não vai ter mais de 1600 carros para vender no primeiro ano, quando esperava ter clientes para 2500, pelo menos, mais do dobro do que vende por cá o Tiguan.

Herbert Diess, o CEO da VW, esteve na sexta-feira passada em Portugal para o lançamento do T-Roc, num jantar com um pequeno grupo de jornalistas, onde tive o privilégio de estar presente e que justifica o atraso de publicação desta crónica, esta semana. Ele reafirmou a sua confiança na fábrica: “o Miguel Sanches (diretor da Autoeuropa) vai ter um grande desafio pela frente, mas tenho toda a confiança na sua equipa. A Autoeuropa é uma das nossas melhores fábricas, sobretudo ao nível da qualidade. Claro que vai haver muita pressão para a Autoeuropa lançar o T-Roc e responder à procura, que é maior do que a capacidade de produção.” Afastados os fantasmas da deslocalização da produção para outras fábricas, devido aos potenciais problemas laborais, Diess afirmou que “a Autoeuropa será a única fábrica a fazer o T-Roc, para todos os mercados em que for comercializado. Também vamos fazer uma versão diferente na China, para o mercado local.

Com a adaptação da fábrica à plataforma MQB, a Autoeuropa fica com o potencial de fabricar um dos muitos outros modelos que usam esta base mecânica, mas Diess não prevê que isso venha a acontecer em breve: “para já, o T-Roc será o único modelo com base na MQB a ser feito em Portugal. O que poderá acontecer é termos que aumentar a capacidade de produção da fábrica, para produzir mais T-Roc, não outros modelos.” O Scirocco já deixou de ser fabricado, mas tanto o Sharan como o Alhambra vão continuar, pois são, neste momento, os modelos mais rentáveis do grupo e deixaram de ter verdadeiros rivais no mercado.

A plataforma MQB permitiu ao grupo VW o maior lançamento de sempre de modelos que partilham a mesma base mecânica, mas apesar de estar preparada para versões eletrificadas, sejam híbridos ou elétricos, a verdade é que não os vais ter mais. “O Golf foi o último modelo eletrificado que fizemos. A partir de agora, temos uma nova plataforma para veículos elétricos e será com base nela que os vamos fazer” afirmou Diess, para confirmar que o T-Roc não terá versão híbrida, nem elétrica. O modelo insere-se numa nova filosofia de produto em que a obsessão pela qualidade deu lugar a uma abordagem mais realista e centrada na rentabilidade. A utilização de plásticos duros no habitáculo ou a insonorização do motor, pior do que a de um Golf, são apenas dois exemplos de poupança de custos que qualquer condutor facilmente consegue identificar. A VW quer ganhar mais dinheiro em cada carro vendido. Não quer apenas vender mais carros que a Toyota, quer ganhar mais dinheiro.

Tendo em conta a gama de motores disponíveis, não me surpreendeu quando Diess me respondeu, a meio tom, que a previsão de vendas do T-Roc, em termos de versões a gasolina e Diesel, favorece os motores a gasóleo. Por mais escandaloso que o “Dieselgate” se tenha tornado nos meios de comunicação - e ficou óbvio, na forma como Diess respondeu à pergunta, que ainda há um certo pudor em falar do assunto em público - a verdade é que o mercado ainda continua a valorizar um motor como o 1.6 TDI, num carro como o T-Roc: preço equilibrado e consumos muito baixos, não passaram de moda.

Não tenho quaisquer dúvidas em dizer que o T-Roc é o automóvel mais importante alguma vez feito em Portugal, não só pela produção anual estimada, como pelo protagonismo que certamente irá ter num dos segmentos mais vigorosos da europa. Daqui a cinco anos, espera-se que o chamado segmento Qashqai duplique o seu volume e chegue aos 11 milhões de carros por ano. É também o modelo alguma vez fabricado na Autoeuropa que mais vai vender em Portugal, muito acima do que as duas gerações do Sharan/Alhambra, do Eos e do Scirocco.

Infelizmente, o T-Roc “falha” num aspeto importante: pelas suas medidas, paga classe 1 nas autoestradas portuguesas, sem necessidade de artifícios ou de alterações mecânicas. Por que razão isto é uma falha? Como me comentava um responsável de uma marca concorrente assim que o modelo foi anunciado: “se o T-Roc fosse classe 2, de certeza que o governo mudava de uma vez por todas a legislação e ficávamos todos a ganhar.”

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