Depois dos SUV, a Porsche lança uma carrinha. O que virá a seguir, uma pick-up?...

A gama Panamera acaba de ser alargada com uma nova carroçaria, uma carrinha de cinco lugares e cinco portas, que a marca chama Sport Turismo e que classifica como “shooting brake.” Até agora, nenhuma marca se tinha atrevido a lançar este tipo de silhueta no segmento das berlinas de luxo. Nem a Mercedes-Benz, que é a rainha da invenção dos nichos de mercado, se atreveu a lançar um Classe S Station, nem a BMW arriscou um Série 7 Touring, nem a Audi teve planos para um A8 Avant. Bem… na verdade, não é bem assim.

Quem gosta da história dos “concept-cars” talvez se lembre do Salão de Frankfurt de 2001 e da grande estrela do stand Audi, o Avantissimo. Feita com base na plataforma em alumínio do A8 D3, este “concept-car” incluía uma série de soluções técnicas que seriam usadas nos seguintes modelos da Audi, desde logo o motor V8 4.2 bi-turbo de 430 cv, mas era sobretudo uma provocação: e que tal uma super-carrinha?... O concept-car, na verdade, era muito mais do que isso, estando praticamente pronto a gerar um produto de grande série. Mas a reação dos potenciais compradores não terá sido suficientemente exuberante para dar coragem à Audi de seguir em frente e o projeto morreu, pelo menos publicamente. O responsável do planeamento de produto da Audi, na altura era um certo Matthias Müller, que certamente não terá deixado de ficar frustrado com a arquivação deste projeto. Mas guardou-o na memória.

Entre 2010 e 2015, Müller desempenhou o papel de CEO da Porsche, altura em que a marca preparava a segunda geração do Panamera, desde o início com a intenção de alargar a gama a mais do que um modelo. No início, chegou a falar-se de uma versão coupé de três portas, um sucessor do 928, com motor dianteiro. Mas isso não deu em nada. A alternativa era fazer exatamente uma carrinha, uma “shooting brake”, num conceito que, entretanto, a Mercedes-Benz estava a reinterpretar. Em 2012, a Porsche mostrou no salão de Paris exatamente isso, o primeiro concept-car do Panamera Sport Turismo e, desta vez, Müller teve a satisfação de ver esta nova super-carrinha ser bem acolhida pelos potenciais compradores. Mas ainda não era a altura certa para a lançar no mercado, apesar de estar também praticamente pronta, o que não era difícil, pois 85% de todas peças são idênticas às dos outros Panamera. Era preciso esperar pela altura certa no ciclo de produto da segunda geração do Panamera, o que durou mais cinco anos, até que chegamos a 2017 e a carrinha da Porsche chega finalmente ao mercado. Com o interesse pelo Panamera berlina a esfriar, nada melhor do que injetar-lhe uma dose de vitalidade com uma inovadora carroçaria. É garantia de que se vai voltar a falar do Panamera, não só da ST mas, por efeito de arrasto, das outras versões. A Porsche espera que 20% das vendas totais do Panamera passem a ser da nova ST, mas não tem a certeza. Como poderia ter certezas, quando arrisca um segmento onde não tem concorrentes? “Vamos ter muito que explicar aos clientes” afirmava o Vice Presidente para a gama Panamera sobre a comunicação que terá de ser feita sobre o Sport Turismo. Quando não há rivais diretos, é mais difícil fazer os compradores perceber do que se trata.

Entretanto, Matthias Müller já não está na Porsche, tendo passado para CEO do grupo VW, no “day after” do “dieselgate”, mas certamente acompanhará com interesse a evolução desta criação na qual teve um papel importante. É mais uma prova de que a intuição de alguns dirigentes ainda tem importância, numa indústria que nos quer fazer crer que tudo se decide com base em estudos de mercado.

O curioso é que nem sequer é a primeira vez que são feitas carrinhas Porsche. Em 1981, o preparador Gunther Artz modificou dois 928S, transformando-os em verdadeiras “shooting brakes”, com três portas e perfil de carrinha. Mais tarde, em 1987, a própria Porsche encomendou a um carroçador externo uma outra versão carrinha do 928, desta vez com quatro portas, sendo as de trás de abertura invertida. Muito dinheiro foi gasto, mas o modelo não levantou o interesse necessário à continuação do projeto. Também em 1981, o mesmo Artz produziu por sua conta a risco umas vinte unidades de um 924 Kombi, mais uma vez com apenas três portas e silhueta de carrinha. Usou a mecânica do 924 Turbo e a carroçaria inspirada no 924 Carrera GT, com alargamentos de guarda-lamas mais agressivos. Em ambos os casos, foram experiências de alcance muito reduzido, mas que mostram que as carrinhas até não são uma novidade absoluta, na Porsche.

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